Uma profusão de pensamentos alheios


31/12/2011


 

Das perdas que não sublimam

 


Minha manhã do dia 31 de Dezembro de 2011 somou as tragédias decorridas em todo o ano e sintetizou em um acontecimento desagradabilíssimo: a morte do jornalista Daniel Piza. Conheci Daniel neste mesmo ano, conheci-o de forma formal, participava de um bate-papo sobre jornalismo cultural, em que os jornalistas culturais de Teresina nunca vão. Na palestra, comentava a importância da apuração dos fatos culturais de forma inteligente, de forma que de fato levasse o leitor a entender e sobretudo a se identificar com o que estava sendo apresentado, objetivamente e didaticamente, trazendo outras propostas para o leitor, propostas que o fizesse descobrir outras coisas por detrás de uma simples matéria jornalística. Uma receita um tanto desafiadora para os quase 50 estudantes e interessados em jornalismo cultural que estavam presentes. Daniel Piza foi elegante, conversou com a plateia, identificou-se com o público, tirou as dúvidas dos curiosos, uma delas a minha: “Quais são os bons jornalistas culturais brasileiros? O Marcelo Coelho?” Sua resposta: Sim, o Marcelo Coelho é um ótimo jornalista cultural. Para ser um bom jornalista cultural não se pode estar condicionado ao fato, tem de ir além, de conhecer tudo sobre cultura e isso quer dizer: ler muito e ler tudo. Mas, de fato, não sei dizer se o Brasil tem “bons jornalistas culturais”, para isso, os bons têm de estar nas redações e poucos dos bons estão nas redações. Acredito, que os jornais precisam rever seus quadros...”. Dois dias depois, circulando na Universidade Federal do Piauí, descobri que Daniel havia me presenteado com o seu livro “Machado de Assis, um gênio brasileiro” pela suposta provocação que o fiz.

 

 

Meses depois, participei de um Congresso de Jornalismo Cultural em São Paulo, um dos palestrantes era justamente ele: Daniel Piza, elegante e com grande identificação com a plateia. Sua fala foi sucinta, comentou um pouco da tradição literária do Brasil e fez uma observação instigante em que dizia: “Os leitores não podem achar que o mundo começou com eles, negando o que veio anteriormente a geração deles”. Ao final do debate sobre a crítica literária, levei um livro de presente a Daniel, um livro do também jornalista Paulo José Cunha sobre o Piauiês; ao vê-lo perguntei se me reconhecia, antes de lhe explicar a pergunta, respondeu: “Claro, você é a garota que falou do Marcelo Coelho lá em Teresina”. Rimos e entreguei-lhe o livro com a seguinte recomendação: “Este livro não é só engraçado, é uma espécie de mapeamento do dialeto interiorano do meu estado”. Ele agradeceu e perguntou se eu havia recebido o livro que ele autografara para mim, disse que sim e logo em seguida, complementou: “Desculpe por ter autografado tão rápido, a letra ficou estranha...”

 


Depois da rápida conversa, tiramos uma foto. Ele não quis ver como tinha ficado, disse: “Não fico muito bem em fotos”. Na verdade, quem não tinha ficado bem era eu, com esperança de que o outro ano seria mais bondoso, não pedi mais uma rodada de fotos; Daniel tinha outros compromissos, havia outras pessoas com quem deveria conversar, o Congresso passou; seu livro está guardado na primeira gaveta do meu criado mudo, as fotos ainda estão memorizadas na minha lembrança e no arquivo do computador...

As fotos paralisam momentos que a vida e suas manias retiram. O ano acabou.

 

Escrito por Paula Pires às 17h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico