Uma profusão de pensamentos alheios


18/12/2010


 

POR UM TRIZ

 

O dia começou mal. Às sete horas, ainda estava sonhando em como achar o caminho de casa numa noite vazia em  uma cidade qualquer. De repente, a realidade: o estágio! O dia estava agonizante e as dores nas costas pareciam bem mais incômodas... Era um dia de segunda-feira quase bem planejado, quanto mais bem planejados são os projetos, menos prováveis parecem ser.  Enfim, o dia em que caminharia por outras trilhas, ou o caminho da inseduzível viagem. Lá estava uma manhã com um sol forte, transeuntes apressados, gente estressada, gente confusa, gente que tinha o aspecto reconhecível da vida que pulsa e clama e nada. Era a hora. Saí contando os passos: Quem sabe eu aprenderia sobre coisas novas? É mais um estágio, não passará disso. Mas já tenho um razoável. E posso conhecer  um mínimo do universo onde os políticos tramam,maquinam e agem... Não custa nada tentar... As decisões são bem mais irritantes do que se imaginam... O almoço foi rápido. A mulher do caixa me olhou como se eu não soubesse subtrair 10,65 de 20,00... Eu sei que não sou uma experte em contas, mas qualquer um poderia subtrair 10,65 de 20,00. "Pronto, aqui é o local". Eram quase duas da tarde. A funcionária já havia me entrevistado, estávamos sentadas uma diante da outra novamente. Mas desta vez, fui eu quem perguntei: "Bom, apenas gostaria de saber como aqui funciona"... "Olha, a gente está precisando de uma pessoa para o turno da manhã... E, às vezes, pode pintar uma viagem"... "Então...É interessante, mas não poderei viajar. Deixa para a próxima". Sai, aliviada. Estava pensando em voltar pra casa, tomar banho escutando "Don't know why" de Norah Jones. Mas senti sede. "Caramba, quase nunca lembro de beber água"... "Por favor, senhor, onde tem água?" "Aqui na cantina, venha..." Os passos descontrolados seguiam aquele homem magro, marrom, gentil. Eram duas e dez. O homem havia tirado uma garrafa pet  do frizer. "Os copos estão ali", havia apontado para alguns copos descartáveis em cima da mesa redonda, de madeira, coberta por uma toalha colorida e vibrante. "Tudo bem", disse. Ele saiu sem culpa. Estava só "ajudando" uma estranha, como fazia todos os dias. "Meu Deus, preciso me lembrar de beber água. Não posso adoecer de burrice". A tampa da garrafa estava bastante apertada, pensei em chamar o homem magro, marrom e gentil. Mas não precisei... Pus a água no copo e assim que levei à boca senti um cheiro forte, um cheiro de tinta, um cheiro de substância tóxica... "O que poderia ser?" Ao encostar a água nos lábios, senti uma sensação estranha:  o contato estava insuportavelmente ardente...  Não era água. "Moço, o que é isso? O senhor me deu solvente!!!" A tarde converteu-se em uma noite sem brisa e sem sonhos...


 

Escrito por Paula Pires às 16h48
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