Uma profusão de pensamentos alheios


13/07/2010


O legado de Saramago



Na manhã do dia 18 de junho, os jornais anunciavam a morte do escritor José Saramago, aos 87 anos. Como uma punhalada inesperada, tive dificuldades de crer; esfreguei os olhos e li novamente: era fato. Depois de algumas reflexões, não tive dúvidas: estavam enganados. Nenhum homem morre depois de fincar na história, na literatura e no coração dos leitores sua magnífica contribuição. Não, Saramago não é meu escritor predileto, mas tenho por ele um silencioso respeito. Afinal, não fosse sua competência e ousadia a prosa moderna na língua portuguesa não teria alcançado tamanha projeção.

É claro, Brasil e Portugal têm outros escritores dignos de um prêmio Nobel de Literatura e seria um grotesco engano dizer que carecemos de bons ficcionistas. Mas Saramago, como um precursor, merece toda a louvação. Sem abrir mão de suas convicções políticas, muito criticadas, conquistou o respeito do mundo pela excelência de sua prosa. Fez-se respeitar sem, necessariamente, ser querido.

Faz quase um mês que seu corpo se ausentou do convívio dos humanos, entretanto suas obras continuam intactas, como pepitas de ouro encravadas nas rochas. Agora, mais do que nunca, é desejável que sua “difícil” escrita se torne cada vez mais necessária e lida. Saramago não esteve entre nós. Esteve, certamente, acima de nós, pois encontrou diversas maneiras de representar as dimensões da alma humana, o que faz dele um reinventor da língua portuguesa que tanto amava.  Não se enganem: não é o fato de ter falecido que faz de Saramago um ícone. Saramago está presente no mais alto panteão do universo literário, obteve isto ainda em vida. A morte privou-nos de sua presença marcante, mas não lhe tirou o legado da consciência imortal e incondicional de sua valiosa missão: guiar os “cegos” pelos caminhos da beleza que só existem na imaginação...

Escrito por Paula Pires às 18h57
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