Uma profusão de pensamentos alheios


15/07/2012


Somos o que está por vir


 

Numa dessas tardes escaldantes de Teresina, qualquer teresinense sabe do que estou falando, decidi abandonar o conforto do quarto para ir ao centro fazer uma inspeção nas lojas de calçados da cidade. Melhor, fui garantir alguns elogios com os novos calçados coloridos. Algumas mulheres consomem por vaidade, e me reservo o direito de questionar: e daí? Ao longo do trajeto, na rua, muitas jovens segurando bebês com aquele inconfundível carinho de mãe... Ao chegar na loja, mais jovens administrando os passos de bebês maravilhados com  a amplidão do espaço.

Na volta, encontro agora uma conhecida grávida, casada e bem humorada. " É a vida _ risos_ estou com o meu barrigão e da outra vez que nos virmos, você vai ver o presente que a vida me deu". Eu pensei: "Que presente a vida pode nos dar, senão o punhado de implicações para as ações que fazemos?"... Desde quando ter um filho é presente? Um bebê é outro ser humano pronto para crescer. Dar vida a outra vida não é um presente da vida é uma situação esperada, sem surpresa, uma situação antiquíssima e sem grandes novidades. 

Penso que muita gente confunde o papel da maternidade com mais uma brincadeira de criança, como brincar de casinha. Fico triste quando jovens engravidam e acham o máximo, quando nem ao menos amadurecem suas ideias para cuidar mais seriamente de uma outra vida que não é nenhum presente, mas uma consequencia que exige uma responsabilidade acentuada. Jovens grávidas me entristecem, porque a juventude é uma corrida de dois passos.

Ser mãe é a tarefa mais complicada e cruel que apenas o amor pode compensar... Em tempos de comunicação digital, tecnologia avançada, amplo mercado de trabalho (pelo menos no Brasil) , igualdade de gênero (pelo menos mais direitos para as mulheres no ocidente), desenvolvimento científico, cultural, etc, ser mãe e ainda ser uma jovem mãe significa atraso de vida. Num destes filmes franceses de perder o fôlego ouvi de um personagem: "É preciso ter uma ótima concepção de si mesmo para querer se multiplicar..." Fiquei com a frase na mente.

Há quem discorde. Ok. Há quem ache o máximo receber esse presente da vida... De fato, nunca me passou pela cabeça ser mãe. Gosto tanto da minha "liberdade" que morreria se tivesse de dividi-la com alguém. Sim, pode ser egoismo, mesmo... Mulheres não podem se reduzir ao cargo de mãe. O mundo não precisa de mães, precisa, isto sim, de jovens que possam parir o futuro com louvor: realizando pesquisas, buscando aprender conteúdos e serviços de utilidade pública.  Ser mulher não significava ser mãe... E o que somos? Somos seres em construção. O que somos está por vir.

Escrito por Paula Pires às 01h01
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11/02/2012


 

Uma invenção e tanto

 

Pouco se comenta das invenções brasileiras. Muitos não fazem ideia de quem sejam os grandes inventores que, por um motivo qualquer, ganham fama em outros ares. A história do brasileiro Santos Dumont é típica e até "batida". No início do século XX, Dumont projetou e voou em balões, na França. Mas ficou ainda mais conhecido por ser a primeira pessoa a decolar a bordo um avião a motor, na França. Não só isso, Dumont foi considerado responsável pela invenção do avião. Quem levou os créditos, no entanto, foram os irmãos americanos Wright. Orgulho para a nação vermelho-azul.

A introdução é só para lembrar que o Brasil nunca foi e ainda não é um país que seja promissor na área "tecno-científica". Como se sabe, poucas patentes têm a nacionalidade brasileira. É certo que esta realidade pode mudar a qualquer minuto e o governo até tenta muito, mas convenhamos: a cultura brasileira anda longe de prestigiar a educação e a tecnologia, o que muitos consideram conectar-se simultaneamente ao “mundo”. Uma ideia um tanto pobre, justamente, por faltar educação na mesa do povo.

Nem tudo são cactos: Ricardo Fittipaldi quer mudar esta sina. O jornalista e empresário produziu uma espécie de canudo com filtro que transforma líquido contaminado em água potável. Transformou, inclusive, sua própria urina em “água para beber”.

 

Veja a ilustração abaixo e entenda o processo de filtragem:

 


 

A invenção denominada H2life já deve ter se expandido por muitos lugares e pedaços do planeta Terra. O problema da água já pode ser previamente resolvido; pelo menos, temos a esperança de que com uma invenção primorosa como esta, o homem continue espalhando vida pela Terra, ao contrário do que ocorreu no século XX, ano de atuação e sofrimento para muitos, mesmo o condecorado Santos Dumont. 

 

Escrito por Paula Pires às 20h13
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31/12/2011


 

Das perdas que não sublimam

 


Minha manhã do dia 31 de Dezembro de 2011 somou as tragédias decorridas em todo o ano e sintetizou em um acontecimento desagradabilíssimo: a morte do jornalista Daniel Piza. Conheci Daniel neste mesmo ano, conheci-o de forma formal, participava de um bate-papo sobre jornalismo cultural, em que os jornalistas culturais de Teresina nunca vão. Na palestra, comentava a importância da apuração dos fatos culturais de forma inteligente, de forma que de fato levasse o leitor a entender e sobretudo a se identificar com o que estava sendo apresentado, objetivamente e didaticamente, trazendo outras propostas para o leitor, propostas que o fizesse descobrir outras coisas por detrás de uma simples matéria jornalística. Uma receita um tanto desafiadora para os quase 50 estudantes e interessados em jornalismo cultural que estavam presentes. Daniel Piza foi elegante, conversou com a plateia, identificou-se com o público, tirou as dúvidas dos curiosos, uma delas a minha: “Quais são os bons jornalistas culturais brasileiros? O Marcelo Coelho?” Sua resposta: Sim, o Marcelo Coelho é um ótimo jornalista cultural. Para ser um bom jornalista cultural não se pode estar condicionado ao fato, tem de ir além, de conhecer tudo sobre cultura e isso quer dizer: ler muito e ler tudo. Mas, de fato, não sei dizer se o Brasil tem “bons jornalistas culturais”, para isso, os bons têm de estar nas redações e poucos dos bons estão nas redações. Acredito, que os jornais precisam rever seus quadros...”. Dois dias depois, circulando na Universidade Federal do Piauí, descobri que Daniel havia me presenteado com o seu livro “Machado de Assis, um gênio brasileiro” pela suposta provocação que o fiz.

 

 

Meses depois, participei de um Congresso de Jornalismo Cultural em São Paulo, um dos palestrantes era justamente ele: Daniel Piza, elegante e com grande identificação com a plateia. Sua fala foi sucinta, comentou um pouco da tradição literária do Brasil e fez uma observação instigante em que dizia: “Os leitores não podem achar que o mundo começou com eles, negando o que veio anteriormente a geração deles”. Ao final do debate sobre a crítica literária, levei um livro de presente a Daniel, um livro do também jornalista Paulo José Cunha sobre o Piauiês; ao vê-lo perguntei se me reconhecia, antes de lhe explicar a pergunta, respondeu: “Claro, você é a garota que falou do Marcelo Coelho lá em Teresina”. Rimos e entreguei-lhe o livro com a seguinte recomendação: “Este livro não é só engraçado, é uma espécie de mapeamento do dialeto interiorano do meu estado”. Ele agradeceu e perguntou se eu havia recebido o livro que ele autografara para mim, disse que sim e logo em seguida, complementou: “Desculpe por ter autografado tão rápido, a letra ficou estranha...”

 


Depois da rápida conversa, tiramos uma foto. Ele não quis ver como tinha ficado, disse: “Não fico muito bem em fotos”. Na verdade, quem não tinha ficado bem era eu, com esperança de que o outro ano seria mais bondoso, não pedi mais uma rodada de fotos; Daniel tinha outros compromissos, havia outras pessoas com quem deveria conversar, o Congresso passou; seu livro está guardado na primeira gaveta do meu criado mudo, as fotos ainda estão memorizadas na minha lembrança e no arquivo do computador...

As fotos paralisam momentos que a vida e suas manias retiram. O ano acabou.

 

Escrito por Paula Pires às 17h22
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02/08/2011


 

Meia noite em Paris: no meio do caminho

 


Com aproximadamente 50 filmes dirigidos, Woody Allen parece não deixar de pôr seus conflitos pessoais numa trama, sejam eles envolvendo relacionamentos amorosos, existenciais ou temporais. Até aí, tudo certo: não é pecado externar, de forma artística, seu universo interior. Mas o que dizer quando uma trama faz você se perguntar, durante boa parte do filme, o que teria levado o diretor da película a fazer um ensaio de uma peça teatral em vez de mostrar um filme capaz de provocar uma reflexão (in)consciente sobre os fatos expostos?

            Depois de assistir ao filme, li a crítica especializada. A maioria os críticos de cinema qualificam-no como o melhor filme do ano. Se o melhor filme do ano me fez sair da sala de cinema com a consciência pesada por não ter feito nada melhor do que passar cerca de uma hora e meia vendo um ator (Owen Wilson) perdido, tentando encontrar um rumo, definitivamente, não sei o que significa o vocábulo “o melhor”.

            No enredo do filme, uma trama com tudo para vingar: um jovem casal de noivos viaja a Paris - a moça (Inez) é interpretada por Rachel McAdams; o rapaz (Gil), roteirista bem-sucedido, é interpretado por Owen Wilson – acompanhando os pais de Inez, que estão em Paris a negócio. No decorrer dos acontecimentos, Gil se mostra deslumbrado com a Cidade Luz, afirmando ser o lugar ideal como fonte de inspiração para suas aspirações de escritor, já que decidira escrever romances ao invés de roteiros. Inez, frustrada com as decisões incertas do noivo, passa a maior parte do tempo com um casal de amigos, sempre tratando-o com desdém pelas “maluquices” de tornar-se um romancista famoso. O certo é que, sentindo-se só e mal compreendido, Gil se aventura pelas ruas de Paris, encontrando sempre às meias-noites um carro que o leva ao que ele considera “os melhores tempos” de Paris. Esse tempo, início do século XX, o faz conhecer seus ídolos literários: Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, entre outros.

            Nessa volta ao passado, Gil encontra também legendas das artes plásticas, como Pablo Picasso e Salvador Dalí e tem um affaire com uma personagem fictícia da trama, chamada Adriana. Não sei se por falta de uma maior identificação do ator Owen Wilson com o personagem Gil ou de mais ousadia por parte Allen, o filme que poderia ser realmente genial, torna-se um drama sem novidades, muito abaixo do razoável. Não resiste, por exemplo, a uma comparação com outras películas envolvendo ícones da literatura como Pablo Neruda, no admirável “O Carteiro e o poeta”, dirigido por Michael Radford, na Itália, em 1994.

            Afora as belas imagens de Paris e algumas interpretações convincentes, “Meia em Noite em Paris” é mais um dos filmes de Wood Allen que ficaram no meio do caminho. Com a experiência de quase cinquenta anos de direção, Woody Allen poderia ter ido muito além. Para mim, o que apresentou é pouco.

 

Escrito por Paula Pires às 12h03
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18/06/2011


Uma luta sem armas 

 

No dia 12 de maio, grande parte dos professores da Universidade Estadual do Piauí decidiram paralisar suas atividades devido às péssimas condições oferecidas aos usuários da instituição: salas inadequadas ou inexistentes, espaços mal estruturados, baixíssimos salários, ausência de estímulos aos estudantes, como a falta de residência estudantil, bibliotecas convenientes, restaurante universitário, apoio à pesquisa, programas que possibilitem trocas de conhecimento. Estes são alguns dos problemas percebidos no campus Torquato Neto, instalado no bairro Pirajá, em Teresina. No interior do Piauí a situação é bem pior. 

A UESPI atua com 16 campi e 25 núcleos universitários em todo o estado e, em alguns municípios, prédios estão completamente arruinados, outros foram interditados, como é o caso do campus no município de Picos, localizado no sudeste do estado.

A greve ganhou repercussão e notoriedade no twitter, quando professores e alunos decidiram expor suas agruras no microblog (hoje, uma das maiores redes sociais colaborativas da internet). 

Muitas são as tentativas dos funcionários e alunos da UESPI de sensibilizar o governo para a resolução dos problemas que comprometem a qualidade do ensino oferecido pela instituição. Com o olhar de quem não quer ver, o governador se nega a dialogar com o corpo docente e discente da universidade.   

Não sou aluna da UESPI, mas agora visito a instituição para tentar aproveitar um pouco da energia dos fortes que lutam e persistem na tentativa de melhorar-lhe o desempenho. Eles não lutam para transformar a UESPI numa OXFORD cabocla; querem apenas aquilo que um governo responsável e comprometido tem obrigação de propiciar-lhes: o básico, o mínimo para que possam trabalhar, estudar e pesquisar dignamente.  

Não é justo tratar a educação desta forma. Para milhares de jovens, a UESPI é a única porta para alcançar o conhecimento e ascender no mundo acadêmico. Na realidade, muitos são os que apostam todos os seus esforços numa educação de qualidade e numa oportunidade de vida melhor.

A UESPI surgiu num contexto político leviano: para os governantes da época, a prioridade era mostrar sua pujança, o seu gigantismo e não a excelência no ensino que deveria oferecer. Ainda assim, a instituição existe e tem prestado relevantes serviços ao Piauí. Nenhum gestor responsável pode ignorá-la sob a alegação de que “o problema é do governo anterior”. Educação deve ser tratada como política de estado e não como simples programa de governo. Lutar pela UESPI não é indisciplina ou rebeldia; é uma atitude cidadã que deve estar acima da politicalha que, infelizmente, ainda norteia a conduta de muitos governantes.

Escrito por Paula Pires às 12h06
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08/03/2011


Mais um dia internacional da mulher


Este ano, as comemorações do Dia Internacional da Mulher (8 de março) foram ofuscadas pelo som dos tambores, surdos, cuícas e, principalmente, pela profusão de luzes e imagens que dão vida ao carnaval. Este não é, contudo, o único ponto negativo do dia. Na Líbia, onde manifestantes e a força de fiéis ao ditador Muammar Gaddafi travam intensos combates, o dia é apenas mais um em meio a um conflito que impõe sofrimentos a todos, notadamente às crianças, às mulheres e aos idosos.

Seria ingenuidade achar que, por sermos ocidentais, "civilizados e amantes da democracia", podemos impor nossa cultura aos ‘primitivos’ orientais, presos a um fundamentalismo autoritário. Lá, como aqui, existe ódio, medo, violência e intolerância. A mulher, por exemplo, continua a sofrer discriminações de todo tipo, notadamente as de ordem econômica, inaceitáveis num mundo que se quer moderno.

Parece que estamos voltando ao século XIX e precisamos mais do que nunca estampar em todos os lugares que somos e fazemos parte da vida econômica, social, política, cultural e estética do país. É evidente que somos e fazemos parte de tudo que lembre modernidade. Talvez o que esteja faltando sejam os créditos. Mesmo entre nós, quantos  homens teriam  coragem de revelar aos amigos que suas mulheres os tornaram mais sensíveis, inteligentes e perspicazes? Não, o que se costuma escutar é: "minha mulher é linda". Ninguém se apaixona pela beleza; beleza deveria ser um complemento. E isso até parece óbvio, mas não é. Muitos homens não revelam que suas amigas, namoradas e mulheres os tornaram melhores. Apenas justificam uma preferência estética.

E quais são as implicações disso? Mulheres se tornam cada vez mais machistas, procurando na beleza a única forma de afirmação, ou seja, comportam-se como homens. E espero estar enganada, mas isso acaba gerando um círculo vicioso: "somos assim porque  nos querem assim", ou seja, vale para os dois sexos. Sem se dar conta, as mulheres tornam-se  patricinhas, egocêntricas, ciumentas e invejosas, prontas para alimentar o mercado da vaidade e do consumismo. Por favor, nada contra mulheres bem vestidas e vaidosas, mas acho que mais do que um belo corpo sob em um vestido maravilhoso deveria existir uma mulher consciente do seu papel na construção de um mundo melhor.

 

Escrito por Paula Pires às 19h24
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10/02/2011


A importância da leitura

Pessoal, resolvi fazer algo diferente: entrevistei o professor Cineas Santos e conversamos sobre livros, literatura e leitura! Conheça o primeiro editor do Piauí a fazer livro com capas.
Obs: A entrevista foi feita no dia 7 de janeiro. O video não pode ser posto no blog, mas cliquem no link abaixo.
Beijos e abraços da blogueira.

www.youtube.com/watch?v=KvCPJATkDMg

 

 

Escrito por Paula Pires às 18h00
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29/01/2011


Não sei...



O conflito no Egito exsurgiu tardiamente. Não sou nenhuma especialista no assunto, mas, às vezes, a opinião de um leigo(a) também conta... O que parece é que nós (brasileiros) vivemos numa verdadeira democracia. Comemos o que queremos comer, se tivermos dinheiro suficiente para conseguirmos o alimento desejado. Moramos, "civilizadamente" entre muitas outras pessoas. Todas elas com suas peculiaridades: umas são evangélicas, outras católicas e mais algumas espíritas, convivemos com gays, héteros e bissexuais sem que nenhum deles se sinta reprimido por isso. Vamos a shows, criticamos as roupas dos nossos amigos, os nossos amigos criticam nossas atitudes e no final da festa, todos vão para casa como se tivessem saindo de um encontro comum. Nada de extraordinário nisso... Mas o que seria de nós se vivêssemos engolindo regras de um ditador por 30 anos? É isso mesmo. TRINTA anos. Nasceríamos, cresceríamos, teríamos nossos filhos ouvindo e abanando a cabeça para um mesmo governo, cujas práticas ditatoriais repudiariam nossas condutas em tudo, nos obrigaria a ir e a voltar na hora estipulada, comeríamos o que tivesse e jamais podiríamos pensar em liberdade. Meu raciocínio é puramente ocidental e seria um erro pensar em ideologias ocidentais no oriente. Mas pensar na humanidade engloba tanto o ocidente, quanto o oriente... Os egípcios suportaram por muito tempo um tirano, cuja antipatia se expressa pelo próprio nome: Mubarak... Vivemos no Brasil, um país que peca por aceitar tudo. Não sei, mas apesar de todas as mazelas que tornam o nosso país uma corja, viver no Brasil é consolador.

Escrito por Paula Pires às 21h55
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18/12/2010


 

POR UM TRIZ

 

O dia começou mal. Às sete horas, ainda estava sonhando em como achar o caminho de casa numa noite vazia em  uma cidade qualquer. De repente, a realidade: o estágio! O dia estava agonizante e as dores nas costas pareciam bem mais incômodas... Era um dia de segunda-feira quase bem planejado, quanto mais bem planejados são os projetos, menos prováveis parecem ser.  Enfim, o dia em que caminharia por outras trilhas, ou o caminho da inseduzível viagem. Lá estava uma manhã com um sol forte, transeuntes apressados, gente estressada, gente confusa, gente que tinha o aspecto reconhecível da vida que pulsa e clama e nada. Era a hora. Saí contando os passos: Quem sabe eu aprenderia sobre coisas novas? É mais um estágio, não passará disso. Mas já tenho um razoável. E posso conhecer  um mínimo do universo onde os políticos tramam,maquinam e agem... Não custa nada tentar... As decisões são bem mais irritantes do que se imaginam... O almoço foi rápido. A mulher do caixa me olhou como se eu não soubesse subtrair 10,65 de 20,00... Eu sei que não sou uma experte em contas, mas qualquer um poderia subtrair 10,65 de 20,00. "Pronto, aqui é o local". Eram quase duas da tarde. A funcionária já havia me entrevistado, estávamos sentadas uma diante da outra novamente. Mas desta vez, fui eu quem perguntei: "Bom, apenas gostaria de saber como aqui funciona"... "Olha, a gente está precisando de uma pessoa para o turno da manhã... E, às vezes, pode pintar uma viagem"... "Então...É interessante, mas não poderei viajar. Deixa para a próxima". Sai, aliviada. Estava pensando em voltar pra casa, tomar banho escutando "Don't know why" de Norah Jones. Mas senti sede. "Caramba, quase nunca lembro de beber água"... "Por favor, senhor, onde tem água?" "Aqui na cantina, venha..." Os passos descontrolados seguiam aquele homem magro, marrom, gentil. Eram duas e dez. O homem havia tirado uma garrafa pet  do frizer. "Os copos estão ali", havia apontado para alguns copos descartáveis em cima da mesa redonda, de madeira, coberta por uma toalha colorida e vibrante. "Tudo bem", disse. Ele saiu sem culpa. Estava só "ajudando" uma estranha, como fazia todos os dias. "Meu Deus, preciso me lembrar de beber água. Não posso adoecer de burrice". A tampa da garrafa estava bastante apertada, pensei em chamar o homem magro, marrom e gentil. Mas não precisei... Pus a água no copo e assim que levei à boca senti um cheiro forte, um cheiro de tinta, um cheiro de substância tóxica... "O que poderia ser?" Ao encostar a água nos lábios, senti uma sensação estranha:  o contato estava insuportavelmente ardente...  Não era água. "Moço, o que é isso? O senhor me deu solvente!!!" A tarde converteu-se em uma noite sem brisa e sem sonhos...


 

Escrito por Paula Pires às 16h48
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17/11/2010


Das vivências que se perdem


No meio do mês de novembro, reencontrei um amigo do qual havia perdido o contato. 

Nem sabia o que dizer, nem ele. Tentei manter um bom astral e o humor amestrado e selvagem de sempre - a dualidade me persegue.

Percebi que a dosagem não havia afetado a indiferença e parei. Quando o humor não resolve, nada resolve.

Para quem me conhece, me conheceu, ou apenas interage comigo via msn ou email já deve ter notado que não suporto o clima “velório”.  Às vezes, sem nada para dizer, busco algumas histórias engraçadas para contar, ou melhor, interpretar. A verdade é que se não me identifico com alguém, esteja certo(a): não busco intimidades, nem ao menos faço gracinhas, isso me ofende.

O humor é algo mágico que torna você e o outro íntimo, íntimo no sentido familiar. Torna você e o outro próximos.

Quiçá, por esta razão, alguns humoristas se tornam tão queridos de muita gente. Millôr, por exemplo, mais parece meu avô que não tive. Conhecido por seu humor refinado, torna a vida de qualquer leitor mais suportável ante as adversidades que tolhem nossa capacidade de processar a vida.

Bem, o que quero dizer com tudo isso é que, com o tempo, algumas pessoas não comportam mais no seu grupo. Não importa o que você faça, que conversa terão ou que novidades tenham. Algumas pessoas, simplesmente, fogem de você e, como uma nuvem apressada, toma rumos improváveis. Por mais que você tente resgatar a alegria que sobrou delas, entenderá que a única coisa que resta é a feição de um tempo que passou sem memorizar o caminho de volta para o encantamento da juventude inesgotável.

Falando assim, parece que tenho 54 anos. Tenho um terço disso, mas as coisas mudam, quem sabe já não esteja na hora de dormir preocupada com as contas e a vida que você teria se tivesse estudado mais ou aceitado o convite para casar com aquele burguês ganancioso da fila do cinema?

__ Do que você está falando? 

__Não sei. O que você ouviu?

Escrito por Paula Pires às 00h10
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15/10/2010


Poesia

                    As mortes

 

quando o primeiro amor morreu

eu disse: morri

quando meu pai se foi

coração descontrolado 

eu disse: morri

quando as irmãs mortas

a tia morta

eu disse: morri

 

depois a avó do norte

os amigos da sorte

os primos perdidos

o pequinês, o siamês

morri, morri

 

estou vivo, a poesia pulsa

a natureza explode

o amor me beija na boca

um Deus insiste que sim

sei não

acho que só vou morrer

depois de mim...

                                             

                 - 

Tanussi Cardoso 

 

 

Escrito por Paula Pires às 16h20
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21/08/2010


Incomum


 

Ele era só mais um dos homens que sentavam ao meu lado e tentavam conversar sobre a vida. Depois de uma pergunta, olhei para seus olhos contornados com óculos de grau. Ele era quase loiro, cabelos curtos, olhos castanhos claros e tinha um jeito inconfundível de quem sabe e não quer saber... Não fazia ideia de qual seria o seu nome, apenas senti que para ele poderia contar quem eu era. O concerto não havia começado. As pernas tremiam como se dentro daquele coração houvesse um ímã confuso que titubeava minha concentração. Não sabíamos mais o que dizer. O medo estava impregnado na minha patética comoção visual. Depois de dez minutos sentindo o farfalhar das pessoas se sentando para a apresentação, ele resolveu me mostrar o livro que estava lendo. Falava de questões ambientais e incluía um estudo de Gaia, feito primeiramente por James Lovelock. Naquela mesma semana havia postado algo parecido no blog. Pensei: não seria muita coincidência? Ele me olhou como se quisesse adivinhar minha próxima fala e talvez tivesse adivinhado. Escrevi num panfleto, entregado por esses fantasmas do cotidiano, o endereço do blog. Na verdade, queria que tivéssemos um contato. O concerto havia começado, fingi que estava atenta aos gestos clementes da cantora lírica... Entretanto, ouvia seu simplório suspiro soberbo. Não olhei para o lado, não vi em qual direção se estendia seu olhar, nem enxerguei a distância do seu corpo do meu. Agora que havia uma possibilidade de nos encontrarmos, não queria estragar o futuro com delírios fugazes. O concerto estava no fim, me levantei e saí... Se fosse embora, estaríamos a um passo do esquecimento. Entrei no banheiro e corri para ver minha expressão em frente ao espelho. Não sabia porque aquele homem mediano de um jeito incomum mexia comigo. Saí do banheiro ansiosa para vê-lo de perto. Ele estava entre as pessoas parado, quieto, insone e inalcançável. Queria saber seu nome, avançava em sua direção, mas uma voz me chamou; olhei para trás e sua imagem se perdeu nas esquinas daquela noite... 

Escrito por Paula Pires às 12h12
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28/07/2010


Já dizia a sabedoria bíblica: 'Tu colhes o que plantas'...

Escrito por Paula Pires às 11h44
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13/07/2010


O legado de Saramago



Na manhã do dia 18 de junho, os jornais anunciavam a morte do escritor José Saramago, aos 87 anos. Como uma punhalada inesperada, tive dificuldades de crer; esfreguei os olhos e li novamente: era fato. Depois de algumas reflexões, não tive dúvidas: estavam enganados. Nenhum homem morre depois de fincar na história, na literatura e no coração dos leitores sua magnífica contribuição. Não, Saramago não é meu escritor predileto, mas tenho por ele um silencioso respeito. Afinal, não fosse sua competência e ousadia a prosa moderna na língua portuguesa não teria alcançado tamanha projeção.

É claro, Brasil e Portugal têm outros escritores dignos de um prêmio Nobel de Literatura e seria um grotesco engano dizer que carecemos de bons ficcionistas. Mas Saramago, como um precursor, merece toda a louvação. Sem abrir mão de suas convicções políticas, muito criticadas, conquistou o respeito do mundo pela excelência de sua prosa. Fez-se respeitar sem, necessariamente, ser querido.

Faz quase um mês que seu corpo se ausentou do convívio dos humanos, entretanto suas obras continuam intactas, como pepitas de ouro encravadas nas rochas. Agora, mais do que nunca, é desejável que sua “difícil” escrita se torne cada vez mais necessária e lida. Saramago não esteve entre nós. Esteve, certamente, acima de nós, pois encontrou diversas maneiras de representar as dimensões da alma humana, o que faz dele um reinventor da língua portuguesa que tanto amava.  Não se enganem: não é o fato de ter falecido que faz de Saramago um ícone. Saramago está presente no mais alto panteão do universo literário, obteve isto ainda em vida. A morte privou-nos de sua presença marcante, mas não lhe tirou o legado da consciência imortal e incondicional de sua valiosa missão: guiar os “cegos” pelos caminhos da beleza que só existem na imaginação...

Escrito por Paula Pires às 18h57
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28/04/2010



"Tudo começa

do mesmo jeito

diferente"

       __Alice Ruiz

 

Escrito por Paula Pires às 09h25
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Histórico